Súplica (III)

A prece que eu murmuro, a soluçar
Ao Deus todo bondade e todo amor,
É rezada de rastos no altar
Onde a tristeza reza com a dor!

A minha boca reza-a comovida,
Chora-a meus olhos, beija-a o meu peito
Sonha-a minh’ alma sempre enternecida
Ao ver-te rir, ó meu Amor Perfeito..

Que o Deus do céu atenda a minha prece,
Embora eu saiba nesta desventura
Que Deus só ouve aquele que o merece!

Mas vou pedindo ao Deus de piedade,
Que te conceda anos de ventura,
Como dias a mim de inf’licidade!…

Florbela Espanca - Trocando olhares

III

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas…

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas…

Florbela Espanca - Charneca em Flor

Amor Que Morre

O nosso amor morreu…Quem o diria!
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonta,
Ceguinha de te ver, sem ver a conta
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria…
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre…e loga aponta
A luz doutra miragem fugidia…

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos pra partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor quie parte o claro riso
De outro amor imposível que há-de vir!

Florbela Espanca - Reliquiae

Trocando Olhares

A 10 de Maio de 1915, Florbela inicia um caderno a que chama «Trocando Olhares», e onde vai guardando a sua produção em poesia e em prosa. Devido às dificuldades económicas que enfrenta na altura e que a obrigam a mudar-se, com o primeiro marido, Alberto Moutinho, para a casa do pai, Florbela, juntamente com ele, passa a dar aulas num colégio; em virtude de todos estes problemas, interrompe a escrita do caderno, que apenas retoma em Novembro. Num ano e meio, Florbela escreve 144 poesias, uma dedicatória em verso e três contos, «A Oferta do Destino», «Amor de Sacrifício» e «Alma de Mulher», mas apenas quatro poesias virão a ser publicadas. «Trocando Olhares» engloba também «O Livro D’Ele», «A Minha Terra» e «O Meu Amor».

«Trocando Olhares» é um livro que evidencia uma certa dispersão, embora seja bastante ambicioso, conseguindo alguns pormenores estilísticos bem achados, como a primorosa abertura do soneto «Crisântemos» e as quadras de «Saudades e Amarguras». Referência, igualmente, à influência da poesia neo-romântica, que surge nesta obra tocada de um certo casticismo, e evoluindo claramente do decadentismo de fim de século, presente através do soneto «A Doida», mas que não tem seguimento neste «Trocando Olhares».

Em termos estilísticos, Florbela dá ainda primazia às quadras isoladas ou aos conjuntos de quadras, embora o papel do soneto ganhe já algum destaque, quase dominando o último quarto da obra.

No aspecto temático, Florbela aborda desde já o papel do amor, a sua importância, e a sua faceta de religiosidade, a par da tristeza de ser poeta, bem patente em «Saudades e Amarguras» e «Poetas»; revela também um acentuado desejo de evasão (ao jeito neo-romântico, como se vê em «Nunca Mais!»), ao lado de uma consciência firme de um destino pouco venturoso, como se constata em «O fado». Além disso, a poetisa manifesta um enorme fervor patriótico, tematizando o seu país e o deslumbramento que sente ao olhá-lo em sonetos como «Paisagem» ou nas quadras «No Minho», em que passeia pelo pitoresco dos lugares tradicionais. Ao mesmo tempo que se tenta libertar de um tom confessional, Florbela mostra já sinais da emancipação literária feminina que, mais tarde, preparará: subverte o erotismo tradicional, centrado no masculino, para um erotismo em que o eu feminino da poetisa se afirma cada vez mais.

Em suma, já em «Trocando Olhares», Florbela se mostra uma poetisa muito singular, a anunciar uma Florbela mais madura.

Sonhando…

É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que é teu!

D’olhos fechados sonho. A noite é uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d’alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.

Lá vem a tua agora… Numa carreira louca
Tão perto que passou, tão perto à minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa

Que a minh’alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija… e a tua alma passa!…

Florbela Espanca - Trocando olhares

78 anos

(…)
Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

{Florbela Espanca}

Tornou-se eterna essa grande poeta, suas palavras dobraram o tempo…
78 anos sem você e ainda estás aqui e aqui ficará para sempre….

Noivado Estranho

O luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz…

A luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada…

O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d´amor o pobre monge…

O luar empalidece de cansado…
E a noite é uma flor de laranjeira
A perfumar o místico noivado!…

Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917

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