A Flor do sonho

A flor do sonho, alvíssima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnólia de cetim
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina.
E não posso entender como é que, enfim,
Essa tão rara flor abriu assim!…
Milagre… fantasia… ou talvez, sina….

Ó flor, que em mim nasceste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amor de ti?!…

Desde que em mim nasceste em noite calma,
Voou ao longe a asa da minh´alma
E nunca, nunca mais eu me entendi…

Florbela Espanca - A mensageira das violetas

Súplica (III)

A prece que eu murmuro, a soluçar
Ao Deus todo bondade e todo amor,
É rezada de rastos no altar
Onde a tristeza reza com a dor!

A minha boca reza-a comovida,
Chora-a meus olhos, beija-a o meu peito
Sonha-a minh’ alma sempre enternecida
Ao ver-te rir, ó meu Amor Perfeito..

Que o Deus do céu atenda a minha prece,
Embora eu saiba nesta desventura
Que Deus só ouve aquele que o merece!

Mas vou pedindo ao Deus de piedade,
Que te conceda anos de ventura,
Como dias a mim de inf’licidade!…

Florbela Espanca - Trocando olhares

Charneca em Flor

Depois de uma paragem de quatro anos, de 1924 a 1928, em que não escreve nenhum soneto, Florbela regressa à poesia em 1929, escrevendo «Minha Terra», acerca de Vila Viçosa, que Guido Battelli posteriormente publicará com o título «Pobre de Cristo», e «Évora». A produção poética tem seguimento em 1930, quando Florbela, a par do «Diário do Último Ano» que começa a escrever, inicia a sua colaboração com a revista «Portugal Feminino» e continua a publicar sonetos na revista «Civilização». Após uma visita do irmão, Apeles, Florbela ganha forças para dar início a «Charneca em Flor», a obra-prima que nunca verá publicada.

Quando, a 10 de Julho, Guido Battelli (com quem entretanto iniciou correspondência) se oferece para publicar «Charneca em Flor», Florbela fica radiante. Estranhamente ou não, a poetisa sente uma enorme pressa de ver o livro publicado e, em Dezembro, ao rever as provas, pressente que não o chegará a ver publicado, o que poderá ter a ver com o seu suicídio.

Finalmente, nos primeiros dias de Janeiro, cerca de um mês depois do desaparecimento da poesia, «Charneca em Flor» conhece a luz do dia. Possivelmente, era, para Florbela, um livro de recordações, em que queria registar as melhores lembranças da vida. Trata-se, sem dúvida, do livro em que Florbela melhor enfrenta a sua totalidade humana, ou seja, é aquele em que melhor consegue condensar as suas vivências, passando-as à poesia como nunca o fizera antes. É em «Charneca em Flor» que melhor se define a sua sensibilidade, apresentada de modo complexo e intenso. Considerado como o seu livro mais sincero, é nele que Florbela retrata a fase mais difícil e pessoal da sua vivência como poetisa, e presta homenagem à sua terra natal. Segundo Antero de Figueiredo, o livro «Charneca em Flor» ficará como um dos mais belos depoimentos literários do coração português de ontem, de hoje, de todos os tempos («Revista Alentejana»). Intensa, insatisfeita, amarga, exaltada, sensual e mística (João Gaspar Simões, «História da Poesia Portuguesa do Século XX») ao mesmo tempo, Florbela dá o melhor de si, distanciando-se das restantes poetisas. Definitivamente, Florbela contribui em «Charneca em Flor» para a emancipação literária da mulher e ousa levar ainda mais longe o erotismo no feminino, como o mostra «Volúpia». Dá, por tudo isso, vida a sonetos tão raros como «Charneca em Flor», «Outonal», «Ser Poeta» e «Amar!».

Rústica

Eu q’ria ser camponesa;
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha…

Levar o cântaro à fonte
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho…

E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D’olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
P’los caminhos de mãos dadas.

E depois se toda a gente
Perguntasse: “Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?”
Eu diria: “É do poente,
Que assim me fez encarnada!”

E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pro monte:
“O cant’ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu…

Florbela Espanca - Trocando olhares

Nervos D´Oiro

Meus nervos, guizos de oiro a tilintar
Cantam-me n’alma a estranha sinfonia
Da volúpia, da mágoa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!

Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhão sinto-As passar!

O coração, numa imperial oferta.
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão,
É uma rosa de púrpura, entreaberta!

E em mim, dentro de mim, vibram dispersos,
Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são
Toda a Arte suprema dos meus versos!

Florbela Espanca - Charneca Em Flor

78 anos

(…)
Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

{Florbela Espanca}

Tornou-se eterna essa grande poeta, suas palavras dobraram o tempo…
78 anos sem você e ainda estás aqui e aqui ficará para sempre….

Noivado Estranho

O luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz…

A luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada…

O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d´amor o pobre monge…

O luar empalidece de cansado…
E a noite é uma flor de laranjeira
A perfumar o místico noivado!…

Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917

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