Rústica

Eu q’ria ser camponesa;
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha…

Levar o cântaro à fonte
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho…

E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D’olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
P’los caminhos de mãos dadas.

E depois se toda a gente
Perguntasse: “Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?”
Eu diria: “É do poente,
Que assim me fez encarnada!”

E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pro monte:
“O cant’ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu…

Florbela Espanca - O Livro D’Ele

Dize-me…

Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,
Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!

Florbela Espanca - A mensageira das violetas

VII

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é somente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se pousaram.

São mortos os que nunca alevantaram
De entre escombros a Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma de um entardecer,

Tombando, em doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão dum campo de batalha!

Florbela Espanca - Charneca em Flor

Paisagem

Uns bezerritos bebem lentamente
Na tranqüila levada do moinho.
Perpassa nos seus olhos, vagamente,
A sombra duma alma cor do linho!

Junto deles um par. Naturalmente
Namorados ou noivos. De mansinho
Soltam frases d´amor…e docemente
Uma criança canta no caminho!
Um trecho de paisagem campesina,
Uma tela suave, pequenina,
Um pedaço de terra sem igual!

Oh, abre-me em teu seio a sepultura,
Minha terra d´amor e de ventura,
Ó meu amado e lindo Portugal!

Florbela Espanca - Trocando olhares - 15/05/1916

A Condição Feminina

A sua condição de mulher foi um enorme impedimento ao desempenho de Florbela. Num tempo em que apenas algumas liberdades começam a ser reconhecidas às mulheres, Florbela teve de enfrentar um mundo dominado por homens, que mostrava muito pouca permeabilidade às mulheres que se destacavam, por exemplo nas artes ou na literatura. A revolta contra a condição secundária em que as mulheres do seu tempo eram colocadas revolta-a frequentemente e, em cartas à sua amiga Júlia Alves, com quem troca regularmente correspondência sem nunca a chegar a conhecer, acaba por reconhecer que se sente presa no casamento, um sintoma de que, de facto, Florbela nasceu numa época que não era a sua, regida por normas a que dificilmente a poetisa se conseguiu adaptar.

Segundo palavras da própria, sentia-se uma mulher sensitiva, totalmente desligada das mulheres animais, que se consideravam apenas fêmeas, satisfazendo-se com a posse. É por isso que achava que nenhum homem merecia o sacrifício da sua liberdade, e é também por isso que a moral tradicional, atribuindo às mulheres uma participação mínima na sociedade, era incompatível com a sua maneira de pensar, favorável à emancipação feminina (José Mattoso, «História de Portugal»).

Por outro lado, o modo como se referiu, na sua obra, à condição feminina é a verdadeira chave que abre a Florbela o caminho para a glória literária: Florbela entra para o templo dos escritores clássicos através de um espaço literário independente, cujo emblema é a sua própria condição feminina (Rui Guedes, «Acerca de Florbela»).

78 anos

(…)
Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

{Florbela Espanca}

Tornou-se eterna essa grande poeta, suas palavras dobraram o tempo…
78 anos sem você e ainda estás aqui e aqui ficará para sempre….

Noivado Estranho

O luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz…

A luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada…

O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d´amor o pobre monge…

O luar empalidece de cansado…
E a noite é uma flor de laranjeira
A perfumar o místico noivado!…

Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917

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