Eu

Até agora eu não me conhecia,
julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era Eu não o sabia
mesmo que o soubesse, o não dissera…
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim… e não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca!-
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
E a chama da tua alma a esbrasear
As apagadas cinzas da minha alma!

Florbela Espanca - Charneca Em Flor

Carta para longe

O tempo vai um encanto,
A Primavera ’stá linda,
Voltaram as andorinhas…
E tu não voltaste ainda!…

Porque me fazes sofrer?
Porque te demoras tanto?
A Primavera está linda…
O tempo vai um encanto…

Tu não sabes, meu amor,
Que, quem ’spera, desespera?
O tempo está um encanto…
E, vai linda a Primavera…

Há imensas andorinhas;
Cobrem a terra e o céu!
Elas voltaram aos ninhos…
Volta também para o teu!…

Adeus. Saudades do sol,
Da madressilva e da hera;
Respeitosos cumprimentos
Do tempo e da Primavera.

Mil beijos da tua q’rida,
Que é tua por toda a vida.

Florbela Espanca - Trocando Olhares

Charneca em Flor

Depois de uma paragem de quatro anos, de 1924 a 1928, em que não escreve nenhum soneto, Florbela regressa à poesia em 1929, escrevendo «Minha Terra», acerca de Vila Viçosa, que Guido Battelli posteriormente publicará com o título «Pobre de Cristo», e «Évora». A produção poética tem seguimento em 1930, quando Florbela, a par do «Diário do Último Ano» que começa a escrever, inicia a sua colaboração com a revista «Portugal Feminino» e continua a publicar sonetos na revista «Civilização». Após uma visita do irmão, Apeles, Florbela ganha forças para dar início a «Charneca em Flor», a obra-prima que nunca verá publicada.

Quando, a 10 de Julho, Guido Battelli (com quem entretanto iniciou correspondência) se oferece para publicar «Charneca em Flor», Florbela fica radiante. Estranhamente ou não, a poetisa sente uma enorme pressa de ver o livro publicado e, em Dezembro, ao rever as provas, pressente que não o chegará a ver publicado, o que poderá ter a ver com o seu suicídio.

Finalmente, nos primeiros dias de Janeiro, cerca de um mês depois do desaparecimento da poesia, «Charneca em Flor» conhece a luz do dia. Possivelmente, era, para Florbela, um livro de recordações, em que queria registar as melhores lembranças da vida. Trata-se, sem dúvida, do livro em que Florbela melhor enfrenta a sua totalidade humana, ou seja, é aquele em que melhor consegue condensar as suas vivências, passando-as à poesia como nunca o fizera antes. É em «Charneca em Flor» que melhor se define a sua sensibilidade, apresentada de modo complexo e intenso. Considerado como o seu livro mais sincero, é nele que Florbela retrata a fase mais difícil e pessoal da sua vivência como poetisa, e presta homenagem à sua terra natal. Segundo Antero de Figueiredo, o livro «Charneca em Flor» ficará como um dos mais belos depoimentos literários do coração português de ontem, de hoje, de todos os tempos («Revista Alentejana»). Intensa, insatisfeita, amarga, exaltada, sensual e mística (João Gaspar Simões, «História da Poesia Portuguesa do Século XX») ao mesmo tempo, Florbela dá o melhor de si, distanciando-se das restantes poetisas. Definitivamente, Florbela contribui em «Charneca em Flor» para a emancipação literária da mulher e ousa levar ainda mais longe o erotismo no feminino, como o mostra «Volúpia». Dá, por tudo isso, vida a sonetos tão raros como «Charneca em Flor», «Outonal», «Ser Poeta» e «Amar!».

Sem palavras

Brancas, suaves mãos de irmã
Que são mais doces que as das rainhas,
Hão de pousar em tuas mãos, as minhas
Numa carícia transcendente e vã.

E a tua boca a divinal manhã
Que diz as frases com que me acarinhas,
Há de pousar nas dolorosas linhas
Da minha boca purpurina e sã.

Meus olhos hão de olhar teus olhos tristes;
Só eles te dirão que tu existes
Dentro de mim num riso d’alvorada!

E nunca se amará ninguém melhor;
Tu calando de mim o teu amor,
Sem que eu nunca do meu te diga nada!…

Florbela Espanca - A mensageira das violetas

Poder da Graça

Altiva e perfumada em cetinoso trem
Passeio uma mundana à luz da tarde quente,
O seu olhar gelado onde se lê desdém
Passeoa pela rua, altivo e insolente.

Para ninguém abaixa o orgulhoso olhar;
Passa o luxo da alta em luminoso trço;
Parece não ouvir da rua o murmurio,
Que seu olhar altivo é sempre triste e baço.

Nem o rir da criança ou o sorrir da luz
Dão vida àquela sombra altiva que seduz
A multidão absorta em roda, a murmurar…

Uma mendiga passa. É´ma beleza ideal!
Nasceu do seu olhar o céu de Portugal!
………………………………..
Abaixa então a rica o luminoso olhar!

Florbela Espanca - Trocando olhares - 28/06/1916

78 anos

(…)
Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

{Florbela Espanca}

Tornou-se eterna essa grande poeta, suas palavras dobraram o tempo…
78 anos sem você e ainda estás aqui e aqui ficará para sempre….

Noivado Estranho

O luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz…

A luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada…

O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d´amor o pobre monge…

O luar empalidece de cansado…
E a noite é uma flor de laranjeira
A perfumar o místico noivado!…

Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917

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