A Nossa Casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho… que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi…
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim…

Florbela Espanca - Charneca Em Flor

A Um Moribundo

Não tenhas medo, não! Tranquilamnete,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono…

A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono…

O que há depois? Depois?…O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

Que importa? Que te importa, ó moribundo?
– Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!…

Florbela Espanca - Charneca em Flor

Confissão

Aborreço-te muito. Em ti há qualquer cousa
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa,
Como em doirada taça algum amargo fel.

Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.

Desprezo-te também. Quando te ris e falas,
Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em íntimo fervor!

Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh’alma
Confessa-to a rir, muito serena e calma!
……………………………………………………..
Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!…

Florbela Espanca - Trocando olhares - 03/07/1916

Para quê?!

Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que nosso peito ri `a gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos d´amor? Pra quê?!… Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só acredita neles quem é louca!
Beijos d´amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…

Florbela Espanca - A mensageira das violetas

Ensaio do soneto “A Minha dor”

A minha dor

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…


Comentário:

Endereçado “a você” é como se fosse um desabafo ou uma carta em forma de soneto, directo e triste. Estão nele presentes símbolos que carregam o ambiente fúnebre e negro, estando a dor associada a um convento.
Palavras como “convulsões”, “sombrias”, “claustros”, “comovidos”, “funeral”, “roxos”, “grito”, “choro” indicam o ambiente nocturno através da repetição do som [u].
Começa por descrever a sua dor como um convento (sendo um convento um lugar de solidão, afastado do mundo), mas apesar de sombrio e até medonho, confessa que tem algum “requinte”. Se no início o convento parece um lugar sem barulho, calmo, o único som que se ouve são os sinos que gemem em tons de funeral todos os dias como se ela estivesse a caminhar dia para dia para a morte. O belo está associado ao macabro ou pouco comum. Já que acha belos os lírios roxos (uma cor triste e melancólica). No convento confessa por fim que está sozinha, e que apesar de gritar, chorar e rezar, ninguém vem em seu socorro.

O curioso neste soneto é a repetição da palavra “convento” e o vocabulário associado á religião tendo aqui uma conotação negativa. Pode-se dizer que o convento em Florbela Espanca é, de facto, o mundo em que vivia, onde tudo era dor e que ninguém, apesar dos apelos, lhe respondia!
Em confronte com o primeiro soneto deste livro, Florbela Espanca refere que “somente a vossa dor de Torturados/ Pode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo”. Este soneto é um apelo a que respondamos ao seu choro e orações através da compreensão e sentimento.

O soneto tem um quê de terror já que Florbela Espanca escreve como se tivesse a morar num convento sozinha longe de tudo e de todos mas no entanto este convento está cheio de “sombras”, a única música ou movimento que há é o toque dos sinos que tocam músicas de funeral a toda a hora implicando que a cada hora que passa está cada vez mais perto da morte. A solidão no fim tem recortes quase de loucura, já que confessa que grita e chora, sendo talvez a melhor conclusão associando-a á ideia de morte.
Viria a morrer 26 anos depois…

78 anos

(…)
Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

{Florbela Espanca}

Tornou-se eterna essa grande poeta, suas palavras dobraram o tempo…
78 anos sem você e ainda estás aqui e aqui ficará para sempre….

Noivado Estranho

O luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz…

A luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada…

O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d´amor o pobre monge…

O luar empalidece de cansado…
E a noite é uma flor de laranjeira
A perfumar o místico noivado!…

Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917

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